19.8.15

Língua Inquieta – O Livro

“De poeta a publicitária, de publicitária a poeta”, assim a escritora Natacha Orestes se apresenta ao falar do lançamento de seu primeiro livro intitulado Língua Inquieta.


Livro lésbico

O livro possui 232 páginas de poemas e prosas poéticas com temática lésbica, produzido 100% fora do mercado editorial, com capa de papelão produzida artesanalmente, escrito, editado e diagramado pela autora.   

Lançado no mês da Visibilidade Lésbica, Língua Inquieta pretende “narrar a libertação lésbica a partir de um ponto de vista pessoal e político, permitindo a outras lésbicas que ainda não sabem que são lésbicas que entrem em contato com referências externas de lesbianidade e mostrando às já-lésbicas que é possível escrever e publicar sem precisar do aval de um mercado que não está nem aí pra arte quando mantêm lésbicas fora das prateleiras.”

O DoMiNiO PeSsOaL,entrevistou a poeta que nos conta um pouco sobre o livro e a trajetória até sua finalização.

DoMiNiO –   Você esta lançando o Livro Língua Inquieta que é recheado de poemas e prosas poéticas com temática lésbica, no mês da visibilidade lésbica. Poderíamos dizer que esta é uma agradável coincidência, ou a escolha do mês foi proposital, tendo em vista a temática abordada no livro?

Natacha - Quando decidi que eu publicaria o livro, não tinha reparado que ele sairia bem no mês da visibilidade lésbica. Só que aí eu comecei a ver as sapatão falando sobre o mês da visibilidade e deu um plim na minha cabeça: quer dizer que eu estou lançando o meu livro com poemas lésbicos no mês da visibilidade lésbica? Demais. Às vezes eu me sinto bem bruxa mesmo, percebo essas “coincidências” como se elas fossem fruto de uma consciência auto-organizada, da deusa, da natureza, sei lá. Freud não explica. A minha vida é repleta dessas coincidências lokas, especialmente no que se refere às questões relacionadas com escrita. 

DoMiNiO – O que te levou a querer produzir o livro Língua Inquieta,assim como os outros dois títulos a serem lançados,de forma artesanal e independente?

Natacha - Sempre quis publicar um livro. Não (só ) pelo status da publicação mas porque eu acho incrível poder manusear um livro: tateá-lo, cheirá-lo, virar as páginas, guardá-lo, esquecê-lo, lembrar de sua existência, lê-lo e de repente tomar um susto pois a leitora – eu - de agora já não é mais igual a leitora – eu - de antes. O mercado editorial me enoja, porque trata poesia como artigo de luxo e a esvazia artisticamente e politicamente quando afirma que poesia não vende. É uma mentira e tanto, poesia vende sim. O último livro do Paulo Leminski superou as vendas daquele best seller 50 tons de Violência Doméstica, como que poesia não vende? O mercado editorial teria de ter a responsabilidade de publicar poetas novas, vozes novas, ir atrás de talentos para manter a poesia viva. Não querem. Porque poesia é um gênero revolucionário capaz de contar a história do ponto de vista do “perdedor”, ou “das perdedoras”. Mas quem comanda o mercado editorial são os vencedores. Machos brancos, para ser mais direta. O colonizador não vai oferecer conteúdo revolucionário pras colonizadas, não é mesmo? Não dá pra esperar que isso venha deles. Esperar não é comigo. Tenho pressa.  A pressa me motiva. Fora isso, também tem todo aquele processo de edição em que uma "autoridade" no ramo da publicação vai dizer qual a melhor ordem para os meus poemas e em como eu deveria dividi-los no livro. Eu perderia toda a minha liberdade de expressão no meio do caminho. E eu não posso perder a minha liberdade de expressão. É fundamental que tudo saia do jeito que eu decidi que sairia. 

DoMiNiO – O que te fez abandonar a publicidade? Você acredita que não seria possível conciliar a vida de poeta com a de publicitária?

Natacha - A mesma questão sobre os vencedores da pergunta acima. Quando você trabalha em agências você lida com pessoas de classe média-alta e entra em contato com o que elas realmente pensam dos “peões”, das atendentes de telemarketing, das agentes de limpeza, de pessoas de culturas diferentes e regiões diferentes. Eu vi muito preconceito e muito ódio de pobre dentro das agências publicitárias. Eu vim da periferia de Jundiaí, uma cidade do interior do estado de São Paulo, da periferia dessa cidade. Meus pais não completaram seus estudos, eu fui a primeira da família a ascender socialmente por meio da educação. Só que eu perdi essa ascensão quando, grávida, me chutaram de um emprego que já estava certo e para o qual só faltava assinar o contrato. Eu preciso de sentido pra viver e dentro do mercado publicitário eu não vejo sentido nenhum. Qual o sentido em querer voltar para um mercado que me inutilizou por causa de uma gravidez? Este é o supra-sumo da misoginia! Como eu estou nessa de quebrar silêncios, eu não poderia deixar o mercado publicitário de fora da minha mira. Se é pra mandar a real, então eu tenho de fazer direito. Como eu jogaria a merda no ventilador estando dentro deste mercado? Poeta não pode ter rabo preso. Agora isso se apresenta para mim como um problema, um obstáculo para a minha autonomia financeira, já que redatora publicitária foi o que construí como carreira para mim durante sete anos. Mas acabou. É um outro tempo agora, e se é pra recomeçar do zero, então eu vou recomeçar direito. Poeta.

DoMiNiO – Em seu blog atual, você diz que enquanto escreveu no Língua Inquieta estava presa à heterossexualidade compulsória. O que seria esta heterossexualidade compulsória, a que se refere?

Natacha - Heterossexualidade compulsória é a obrigação à heterossexualidade desde pequena. É aprender a cuidar de bonecas enquanto meninos aprendem liderança. É aprender a esperar o príncipe encantado, representação de deus na terra, o único capaz de salvar a mocinha do perigo com um “beijo de amor” enquanto ela dorme. O que é estupro, certo? É beijo sem consentimento, os contos de fadas ensinam a normalizar estupro. É não entender que o príncipe é que é o perigo porque tal entendimento nos foi roubado. É você ter orientação sexual desde pequena voltada para outras mulheres e a sua mãe e seu pai te proibirem de ter amigas sem você não entender nada do que está acontecendo. Porque a sua mãe já sabe das suas tendências, mas você, criança, mal consegue formulá-la por falta de representatividade: você não conhece nenhuma mulher lésbica, como vai entender que é lésbica? É você ter seu primeiro beijo com menina e primeiro sexo com menina e ainda assim se sentir BV ou virgem. É a sociedade dizendo às mulheres que nós somos mulheres porque pênis nos transformaram em mulheres, a expressão “eu a fiz mulher” é uma prova disso. É “cidadãos do bem” ameaçando lésbicas com estupro corretivo para que nós aprendamos o que é ser mulher de verdade. Como se “ser mulher” fosse igual a gostar de pênis. Sabe? A sociedade empurra pinto pra mulher de todas as maneiras possíveis, isso se chama cultura do estupro. Heterossexualidade compulsória é cultura do estupro.

DoMiNiO – Seus textos e poemas evoluíram após libertar-se desta compulsoriedade? Como assumir-se e reconhecer-se enquanto lésbica impactou em sua produção literária?

Natacha - Eu ainda não me libertei dessa compulsoriedade, em sonhos os meus estupradores ainda me perseguem, e eu tenho um filho. Compulsoriamente estou ligada a um homem até o fim da minha vida, mesmo que não afetivamente, mesmo que não sexualmente. Mas juridicamente estou ligada e isso é uma bosta. Formalmente não houve impacto no que eu escrevo, pois no que tange a forma – ou estilo - acredito que a minha escrita já esteja desenvolvida, embora ela não esteja isenta de se transformar. Mas no que tange o conteúdo sim. É como se escrever fosse cavar um poço pra encontrar água. Eu estava há muito tempo cavando, cavando, cavando e com a sensação de que eu não saía do lugar. E eu não tinha a menor ideia de como ir mais fundo. “Tinha uma pedra no meio do caminho”. Ter entendido a minha lesbianidade foi como dinamitar a padra e a partir daí conteúdos começaram a jorrar das minhas profundezas. O impacto disso é o impacto do acesso à verdade. Gloria Steiner estava correta quando disso que a verdade vai te libertar, mas primeiro ela vai te enfurecer. Eu tive de lidar com a fúria que jorrava daquela parte de mim que foi impedida de existir. Registrei essa fúria, pois sabia que ela era parte do processo. Fui muito criticada por isso. “Você odeia homens, é louca, deveria se tratar”, opiniões que geralmente leio a meu respeito De mulheres. A maioria hétera. A libertação é mais interna do que externa, porque eu não tenho controle sobre uma sociedade misógina e lesbofóbica. Mas eu tenho agora acesso à consciência de que sou lésbica. À consciência de que minhas potências foram roubadas e que elas podem e devem ser reivindicadas. Inclusive na literatura. Aliás, utilizando a literatura como ferramenta para isso, uma vez que a literatura é a legislação oculta do mundo. O impacto é fazer as minhas próprias leis, inventá-las, para que elas pelo menos existam como um mundo possível dentro das minhas obras. Dentro da minha esperança.

DoMiNiO – Os outros dois livros a serem lançados nessa campanha também abordarão a temática lésbica?

Natacha - A temática lésbica está diluída nele sim, porque a lesbianidade é como se fosse um fio condutor da maioria das coisas que escrevo. E é sem querer. Mas percebi este fato, o da lesbianidade diluída em tudo o que faço. Porque no fim das contas a lesbianidade é uma resistência à feminilidade. Não a performática somente, não a feminilidade do batom e da saia, mas a feminilidade da obrigação ao silêncio perante as violências dos homens. Portanto, a temática dos próximos livros não é lésbica, mas tendo sido escrito a partir da necessidade de quebra de silêncio e tendo essa quebra de silêncio sido ampliada a partir do momento em que eu quebrei o silêncio sobre minha lesbianidade, então sim, eles têm um pano de fundo lésbico, mas não é o foco.

DoMiNiO – Viver de arte é possível em um mundo em que ser mulher torna-se um empecilho no mercado literário conforme comprovam as estatísticas? Ser lésbica torna-se um agravante neste caso?

Natacha - Existe aquela velha pergunta sobre o que é e o que não é arte, né? Por exemplo, designers que trabalham para a publicidade juram de pés juntos – e são levados a crer pelo mercado em que atuam – que eles são artistas. “Diretores de arte”. Mas o que eles fazem não é arte, é embalagem de produto. Desde quando embalagem de produto é arte? Desde Andy Warhol e a arte pop? Daí existem aqueles pintores que inalam tinta e espirram na parede e chamam a isso “arte conceitual”, aquela que só os inteligentes conseguem ver. O pós-modernismo masculino nunca foi arte, pelo contrário, ele foi e continua sendo ferramenta de colonização. Fazer uma defesa de conceito, por exemplo, pra uma empresa comprar a ideia que os publicitários querem vender é um exercício bem pós-moderno de linguagem. Retórica aplicada ao consumo. Isso que é pós-modernismo. Viver desse tipo de “arte” é bem fácil. Rende. Gera lucro. Mas viver da arte-resistência é mais difícil. Não acho que seja possível viver só de arte não, embora eu ache que nós temos de lutar até o fim de nossas vidas para tentarmos fazer com que isso se torne possível. Creio que a internet possibilita redes, encontros, apoio, contato com histórias perdidas, retalhos que precisam ser costurados. Isso pode e deve ser muito melhor desenvolvido pelo poder público, pelo poder popular, pela sociedade em sua totalidade, desde instituições progressistas até indivíduos a partir de coletivos para além de ONGs. Educadores politicamente comprometidos são artistas. Artistas de fatos estão comprometidos com a verdade, com a denúncia, com a livre expressão e manifestação. Não somente com a estética. Ser artista é muito mais uma questão ética do que estética. A estética e a forma importam sim para a arte, mas não são o principal. Só que quem se preocupa com o principal fica à margem. Tivemos no Brasil um movimento literário chamado Literatura Marginal, mas as mulheres marginais, as escritoras marginais, quem fala delas? Quem fala de Ana Cristina César e sua afetividade por mulheres descrita em suas obras? Para Ana Cristina César, angústia é fala entupida. De entupida, de silenciada, de bloqueada, calada, marginalizada, invisibilizada, Ana Cristina César cometeu suicídio. Por que o mercado editorial não fala dela? Por que não toma responsabilidade pela parte que lhe cabe nas angústias de Ana Cristina César? Para as mulheres que amam mulheres fora da fetichização heterocenteada, para as mulheres que se recusam a silenciar afetividade com foco em outras mulheres, tudo se torna mais difícil, sim. Difícil ao ponto de essa dificuldade nos custar à vida.

DoMiNiO – Qual seu processo de criação? Os poemas surgem através da observação de mulheres ao seu redor, de experiências pessoais...?

Natacha - Eu sou muito autocentrada. Parto do mergulho em minhas próprias sensações. Sinestésica. Isso veio de uma certa náusea infanto-juvenil. A primeira coisa que escrevi e que foi assustadora para mim ao ler depois foi o registro da consciência de que a bagunça que eu via fora se parecia com a bagunça de dentro e a última era reflexo da primeira. Descrevi o quarto, uma briga dos meus pais no cômodo ao lado e o que eu estava sentindo. Minha mãe chegava a confiscar meus diários de tanta verdade que tinha neles. Depois desse acontecimento eu acho que entendi o poder das palavras escritas e não deixei de fazer do mesmo jeitinho. Mergulhando, cavando, procurando uma maneira de perfurar as rochas para encontrar as águas represadas. Eu sonho muito com água. Um sonho que se repete desde a infância é o afogamento. Vejo como um símbolo forte do qual o meu corpo quer me lembrar. Eu sonho com afogamento. Mas de repente começo a respirar debaixo da água. Acho que escrever é isso. Respirar embaixo da água. Escrever é como sonhar acordada, é como despertar, só que para dentro. Muitas vezes eu escrevo tão rápido que nem acredito que possa ser eu mesma escrevendo. Sinto-me às vezes como uma mera caneta a escrever o que precisa ser escrito. Precisa porque é necessário para mim o registro, então meu pensamento corre sozinho, livre, enquanto minha mão corre para acompanhá-lo. Com o registro eu posso me auto-analisar. Este é um dos processos, o da escrita analítica. Acho que depois de um tempo escrevendo analiticamente eu preciso sintetizar as análises para rememorar meus processos internos. Daí uso a forma. Tento captar as conclusões do que percebi, vi, senti, e transformar essas conclusões em algo esteticamente agradável, com um pouco de ritmo, de figuras de linguagem, muitas aliterações e metáforas. Mas também há o momento do vazio, que é criação em estado bruto. Os hiatos criativos. Aprendi a respeitá-los. Faz parte do processo criativo respeitar e não temer os hiatos. Respeitar os hiatos criativos é saudar a vida vivendo, o corpo se transformando, as dúvidas sendo processadas pelo cérebro, as conexões neurais percorrendo nosso sistema e produzindo respostas. Os processos vêm em ciclos, são influenciados pela lua, pelo meu ciclo menstrual. É muito interessante observar isso também.

DoMiNiO – Porque escolheu expressar-se através de poesia?

Natacha - Por necessidade de lembrar de que eu fui com o mínimo possível de palavras. Para não me esquecer de quem eu sou. Para ter mais segurança na minha própria percepção do mundo. Para ser autoridade máxima da minha própria fala. Para desafiar homens quem ousam criticar o que eu penso: mas não com a psicanálise, porque a minha analista sou eu. Eu os desafio a escrever poemas melhores do que os meus. Ninguém precisa me dizer quem eu sou, eu sou capaz e bem capaz de falar por mim. A poesia é uma maneira curta e grossa, nevrálgica, de resistir e de tentar registrar um período da história.  

DoMiNiO – Em sua opinião o que ainda deve ser feito para que a mulher lésbica venha ter real visibilidade na literatura, e porque tal visibilidade é tão importante?

Natacha - O principal é que lésbicas tomem consciência de que são lésbicas e do que isso significa. Ser lésbica é por si só um ato de rebeldia contra a dominação masculina. A partir do momento em que dizemos “sou lésbica”, implícita está a ideia de que não nos relacionamos com as pessoas do sexo masculino. E isso, por causa da heterossexualidade compulsória, acaba sendo uma escolha sim. Não acho que essa escolha esteja disponível para todas ou tenha de ser feita por todas, mas incentivo mulheres que se sentem afetivamente conectadas com mulheres que reflitam sobre essa conexão e sobre o que isso significa para a própria existência. A lesbianidade foi uma escolha pra mim. Eu não “nasci lésbica”, eu me tornei, foi um processo de consciência. Eu me tornei porque antes fui impedida e havia desistido de me relacionar afetivamente com mulheres. Fui impedida de ser lésbica, então não importa se eu nasci ou não nasci lésbica, importa que eu, mesmo impedida, me tornei consciente disso e desconstruí a minha heterossexualidade, que eu chamava de bissexualidade, mas era heterossexualidade. Afinal eu só me relacionava com homens e me dizia “curiosa”. Então houve o momento em que me questionei por que eu colocava limites a essa curiosidade e encontrei a lesbofobia dentro de mim. Foi dolorido entender que eu era lesbofóbica comigo mesma. Portanto, para resumir, a resposta à sua pergunta é: que cada vez mais curiosas e lésbicas escrevam e se indaguem sobre a própria sexualidade e que compartilhem suas visões de mundo e se apóiem umas nas outras. A literatura lésbica não faz parte do mercado editorial. Precisamos apoiar umas às outras para registrarmos nossas histórias sem a intervenção do patriarcado. Precisamos inventar modos de permitir que a literatura lésbica brasileira se auto-organize e se autosustente para ser eternizada. Isso é poderoso.

DoMiNiO – Seus livros contribuem para esta visibilidade?

Natacha - Eu acho que sim, mas ainda é pouco, muito pouco. Sozinha eu não sou nada. Só coletivamente é que ganhamos força para atravessar com nossas histórias de geração em geração. E essa coletividade, esse senso de coletividade, nós precisamos construir. Não vai ser construído por ninguém além de nós. Pelo contrário, nossa história é sempre queimada, destruída, jogada na fogueira pública das críticas lesbofóbicas. Nós já sabemos disso. Já é história. Precisamos agir a partir dessa história para que ela não se repita.

DoMiNiO – Você escreve exclusivamente para mulheres, ou prefere não fazer distinção de seu público alvo?

Natacha - Escrevo exclusivamente para mulheres desde o momento em que comecei a me entender lésbica. Inclusive quando eu me dirijo às leitoras o faço desta forma, flexionando gênero. Mas não proíbo e nem posso proibir o acesso de homens aos meus textos. A questão é que eles realmente não são o público-alvo. Não me importo com a opinião deles sobre o que escrevo. Agradeço que me leiam e se me divulgarem serei grata. Só que entendo que eles não me são necessários. Ser compreendida por mulheres é meu objetivo.

DoMiNiO – Seus livros podem ser considerados livros feministas?

Natacha - Eu já fui feminista, não sou mais. Há quem diga por aí que eu sou uma feminista fundamentalista. Risos. Fundamentalista lésbica não tem lógica, né? Está na moda chamar feminista que não se cala perante a violência dos homens de “feminista fundamentalista”. Há interesses políticos óbvios por trás dessas críticas infundadas. Só observar que essas críticas quase sempre partem de mulheres brancas, de classe média-alta, acadêmicas e héteras. E ligadas à publicidade, o principal. E à política. Nada é por acaso... Mas enfim, meus livros podem ser considerados feministas sim, eu devo muito do que aprendi ao feminismo, então se mulheres decidirem que o que eu escrevo é feminista por mim está tudo bem. Só que eu, euzinha, não sou feminista. Porque o feminismo se tornou ferramenta de colonização e eu não quero perpetuar isso não. Prefiro me desvincular e produzir o que acredito. Se disserem que a minha produção é feminista, ok.




DoMiNiO – Podemos observar que o feminismo vem se moldando a realidade das mulheres que o compõe, e que fazer recorte de raça, sociais e sexualidade é extremamente necessário. O feminismo como o conhecemos hoje, contempla as pautas das mulheres lésbicas?

Natacha - Em partes e em teoria sim. O Feminismo Radical, por exemplo, a base dele foi produzida a partir de teorias lésbicas. Só que essas teorias vêm de fora do Brasil, então é preciso incentivar a crítica ao feminismo no país. Porque a crítica ao feminismo no país virá de mulheres, e mulheres criticando o feminismo é igual a mulheres criticando a colonização. O feminismo tem muito o que aprender com movimentos sociais que não foram importados e sim construídos aqui. A resistência das mulheres antecede o feminismo, e eu acho que trabalhar o conceito da interseccionalidade como uma ética prática é produtivo. Há que se reconhecer as reproduções de opressão entre mulheres e possibilitar o avanço dessas denúncias. Não vejo o feminismo promovendo isso atualmente, mas vejo mulheres feministas resistindo e tentando tanto quanto vejo mulheres deixando o feminismo por causa de não se verem contempladas. Lésbicas, por exemplo, têm feito isso. Foi o que eu fiz. Então o feminismo me parece um ponto de tensão interessante. Só que ele foi cooptado pela mídia e pela publicidade, então há que se buscar uma postura de crítica ao liberalismo (política de exploração, consumo e lucro) e como esse liberalismo tem assimilado a luta feminista para aplicá-la às políticas de consumo. Feminismo não deve ser política de consumo e sim de sustentabilidade. Vejo essa sustentabilidade sendo construída por algumas frentes formadas por mulheres feministas e não-feministas em conjunto. Uma que eu recomendo é a frente da #ElasPorElas.  A proposta da #ElasPorElas é trazer a periferia para o centro. Aposto em iniciativas desse tipo. E ela não é feminista!

DoMiNiO – Você pretende lançar novos livros após estes três primeiros?

Natacha - Sim, já tenho outros em mente.

DoMiNiO – Pretende seguir o mesmo padrão artesanal para as próximas produções?

Natacha - Talvez eu possa tentar um financiamento coletivo utilizando alguma plataforma digital. Mas isso é algo sobre o que só vou saber depois que eu tiver lançado estes primeiros livros.

DoMiNiO – Qual o seu conselho para as mulheres lésbicas aspirantes a escritoras, que sonham em algum dia lançar seus livros?

Natacha - Que aprendam a não depender da opinião de homens sobre sua produção. Que lutem que não se calem que não desistam que sejam teimosas, que criem suas próprias maneiras de registrar e repassar suas histórias, que se apóiem umas às outras, que desconstruam a competitividade porque competitividade é reflexo de consumo e nós não somos concorrência umas para as outras, nós somos a resistência juntas. Essa consciência é fundamental.

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* Este texto faz parte da programação de posts do DoMiNiO PeSsOaL sobre o Mês da Visibilidade Lésbica.


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2 comentários :

  1. Natasha, querendo conhecer vc de pertinho!!!

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    1. Sem dúvidas uma pessoa que vale a pena conhecer!

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