10.11.15

FIQ 2015 traz exposição que questiona a representatividade feminina nos quadrinhos

Em 1997 Belo Horizonte completou seu primeiro centenário, e no clima de comemoração, sediou vários eventos, um deles foi o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), que acabou se tornando referência obrigatória para os quadrinistas e demais artistas do gênero, sendo considerado o principal do gênero na America Latina.


Neste ano o FIQ acontecerá na Serraria Souza Pinto na capital mineira entre os dias 11 e 15 de novembro, com todas as programações gratuitas, como oficinas, exposições, lançamentos e um grande número de atividades paralelas que podem ser conferidas no site do evento.

Em sua 9ª edição o FIQ, apoiará a campanha “Que Diferença Faz” do Ministério Público de Minas Gerais, uma iniciativa que pretende combater todo tipo de preconceito, com maior ênfase para aquelas relacionadas à raça e etnia, gênero, orientação sexual, deficiências físicas ou psicológicas, e colocar em debate a história vivida por diversos grupos.

O apoio a Campanha que Diferença Faz, reforça o objetivo do festival em ser verdadeiramente inclusivo, bem como as atividades e exposições propostas durante o evento, dentre elas destacamos a exposição Heróica, que tem como proposta questionar a representatividade feminina nos quadrinhos.

A exposição traz novas interpretações das vilãs e heroínas do universo DC e Marvel com sua personalidade reconstruídas na visão de 5 artistas brasileiras. As personagens vão virar cosplayers, circulando pelo evento e os visitantes do FIQ vão poder conferir de perto essa transformação. Cinco mulheres foram convidadas para fazer cosplay das personagens, mostrando não só uniforme, mas a caracterização criada pelas artistas.

 A curadoria da exposição é assinada pela designer gráfica e ilustradora Ariane Rauber, que cedeu uma entrevista exclusiva ao DoMiNiO PeSsOaL, contando um pouco sobre a exposição e sua visão enquanto mulher e artista no universo dos quadrinhos.

DoMiNiOComo a “Heróica” nasceu?

Ariane – Foi em parceria com a curadoria do FIQ. Com tantos casos de personagens conhecidas dos quadrinhos se reinventando, achamos que seria um momento perfeito para trabalhar a questão da representação feminina. A questão do cosplay reforça esta representação, pois permite vermos pessoalmente as grandes mudanças propostas pelas artistas. 

DoMiNiO – As artistas responsáveis pela exposição já se conheciam, ou o primeiro contato veio através da produção e organização da mesma?

Ariane – Todo o contato foi feito a distância, então não sei se as artistas se conhecem pessoalmente. Mas o pessoal se conhece por nome ou por já ter visto algum trabalho, é um meio pequeno. 

DoMiNiO – Você já participou de edições anteriores do FIQ? Qual sua percepção em relação à participação feminina no Festival?

Ariane – Esta é minha primeira vez no FIQ. Conheço por nome e por vários conhecidos falarem muito bem do evento. Não posso comparar com as outras edições, mas o que pude notar nas divulgações é que a participação feminina é bem equilibrada. A participação de gêneros parece igual e isto é fantástico, principalmente em mesas de discussão e na área de exposição dos artistas independentes.

DoMiNiO – Ao longo dos anos o FIQ se tornou uma referência obrigatória para os quadrinistas, sendo considerado o principal do gênero na America Latina. Para vocês enquanto artistas e mulheres, qual a importância de poder expor em um evento tão grandioso?

Ariane – É ótimo poder participar, mas melhor ainda é ter a confiança da organização do evento em topar a ideia. 



DoMiNiO – O FIQ 2015 publicou recentemente um editorial se posicionando contra aos preconceitos nos quadrinhos, além de apoiar a Campanha “Que Diferença Faz” do Ministério Publico de Minas Gerais. Vocês acham que o universo dos quadrinhos vem se tornado mais inclusivo para com as mulheres, principalmente para aquelas que fogem do padrão branco, magro e heteronormativo?

Ariane – Gosto de acreditar que sim. Existe uma mudança acontecendo, um questionamento do estereótipo feminino e as editoras não deveriam ficar paradas no tempo. 

DoMiNiO – Recentemente a na edição 48 do Sensation Comics, a Mulher Maravilha aparece oficializando o casamento de sua amiga Elizabeth com outra mulher, o que foi considerado um marco para o público lésbico, visto que essas vivem no limbo da invisibilidade, inclusive no meio LGBT. Vocês perceberam alguma mudança em relação à inclusão dessas mulheres no ambiente de produção de HQ e trabalhos do gênero? A exposição Heróica também tem como objetivo representar estas mulheres?

Ariane – As artistas tiveram total liberdade para desenvolver, inclusive se quisessem incluir personagens gays. Em um meio mais independente, acredito que qualquer público pode ser representado, os artistas se sentem livres para criar. No mercado em si, não saberia dizer sobre quem produz, mas se temos exemplos de personagens que representam a questão de gênero, imagino que deva haver uma inclusão sim. 

DoMiNiO – De que maneira a exposição pretende contribuir para a visibilidade e empoderamento das mulheres no FIQ 2015?

Ariane – É uma maneira de se questionar a visão de feminilidade por homens e mulheres. Grande parte das personagens retratadas foram criadas por homens para um público masculino. É impossível não comparar o resultado se fossem criadas por mulheres, como o FIQ propõe. 

DoMiNiO – Vocês pretendem levar a exposição para outros eventos ou ela será exclusivamente exposta no FIQ?

Ariane – A princípio ela foi criada em parceria com o FIQ. Ainda não comentamos da possibilidade de levá-la a outro evento. 

DoMiNiO – Foi encontrada alguma dificuldade para produzir e expor o projeto Heróica,visto que ela questiona a representatividade feminina nos quadrinhos?

Ariane – Não, o FIQ abraçou o projeto. E acredito que o público em geral está mais aberto a discutir essa questão.

DoMiNiO – Além da exposição, você está envolvida em algum outro projeto e atividades dentro do FIQ 2015? Conte-nos um pouquinho sobre elas.

Ariane – Faço parte do Estúdio Complementares, de Porto Alegre, com a Ana Koehler, a Cris Peter e a Ursula Dorada. Minha função é cuidar do projeto gráfico, sou a designer do grupo. Temos 3 lançamentos previstos para o FIQ: Patas Sujas, Beco do Rosário e Amo minha roomie. 

DoMiNiO – Quais as artistas que lhe influenciaram e inspiraram tanto na carreira quanto nesta Exposição?
Ariane – Várias! A cada evento ver o pessoal produzindo tanto incentiva muito! A gente volta pra casa com a cabeça cheia de ideias e querendo colocar em prática.

DoMiNiO – Quais são os trabalhos de quadrinistas/ilustradoras/ produtoras que vocês acompanham hoje em dia e acreditam merecer destaque?
Ariane – Difícil escolher. Recentemente ajudei na parte gráfica do Beco do Rosário da Ana Koehler, e com certeza merece atenção. É uma HQ histórica sobre Porto Alegre, muito coerente com os problemas que a cidade esta passando agora. E a arte é linda. 

DoMiNiO – Há algum projeto futuro em que vocês pretendem trabalhar novamente em parceria?

Ariane – Não existe um projeto futuro, mas quem sabe. Temos o contato. 

DoMiNiO  - O mundo dos quadrinhos ainda vem sido um ambiente pouco inclusivo para mulheres? Na opinião de vocês o que ainda pode ser feito para reverter este quadro?

Ariane – É difícil dizer que ainda é pouco inclusivo, pois é uma fase de transição. Tem uma mudança acontecendo e em algumas editoras pode ser um passo lento, mas o público existe e se elas querem se manter, terão que abraçar as mudanças. 


A Programação do Festival você encontra no site do FIQ.


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