21.1.16

Lesbofobia e Intolerância Religiosa têm mais coisas em comum do que você imagina

Hoje, dia 21 de janeiro é o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Instituída pela lei federal (11.065/07) para lembrar a morte da Iyalorixá Gilda do Ogun, o dia 21 de janeiro não é uma comemoração, mas um memorial, uma oportunidade de refletirmos e desenvolvermos ações para combater a intolerância em nossa sociedade.


O dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa começou a fazer parte de nosso calendário porque infelizmente a intolerância é uma característica sócio-cultural fortemente presentes em nossa sociedade, a intolerância religiosa assim como a de gênero ou lesbofobia, estão ligadas a concepções de vida, poder e crenças. Todas elas vêm da mesma estrutura de sociedade patriarcal que se constitui de maneira violenta e hierárquica onde uns são tidos como superiores e mais humanos que outros porque são homens, brancos, cristãos, patrões, heterossexuais… ou porque detêm maior poder econômico.

Intolerância religiosa é um assunto que diz respeito à comunidade lésbica, principalmente as de pele escura, porque o mesmo sistema que apedreja garotinhas na rua por serem de religião de matriz africana é aquele que nos estupra com a desculpa de nos curar de nossa homossexualidade.  A raiz de todos os preconceitos advém do mesmo modelo de sociedade heterossexual, branca e patriarcal.

Para que essa estrutura social, poderosa e opressora mantenha sua dominação sobre as pessoas e possa ser perpetuada entre gerações, é necessário que se acredite que naturalmente ou por instituição sagrada, existem seres humanos superiores aos outros. Daí que nascem diversas formas de opressões e preconceitos. Demonizar e inferiorizar o outro é uma forma eficaz de dominá-lo, legitimando que isto é aceitável, visto que ele é inferior.

É fácil traçar um paralelo entre a intolerância religiosa e a lesbofobia a qual estamos expostas. O sistema de poder e opressão são os mesmos, as armas utilizadas são as mesmas. A lógica utilizada para tratar lésbicas como pecadoras e logo indignas do céu, o que consequentemente da o aval para sermos expostos a exorcismos e humilhações em templos, sermos expulsas de casa pelos nossos pais que acreditam que Deus não nos aprova, portanto eles têm todo o direito de nos jogar na rua, é a mesma lógica que fez com que a Igreja Universal do Reino de Deus em outubro de 1999, estampasse a capa do jornal Folha Universal com uma foto da Iyalorixá Gildásia dos Santos e Santos – a Mãe Gilda – trajada com roupas de sacerdotisa para ilustrar uma matéria cujo título era: “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”. Na época a casa da Mãe Gilda foi invadida, seu marido foi agredido verbal e fisicamente, e seu Terreiro foi depredado por evangélicos.

A intolerância religiosa é responsável por mais de 80% dos conflitos existentes hoje no planeta, haja vista os grupos terroristas do Oriente Médio, que hoje atacam em qualquer local do mundo. No Brasil, começou-se uma intolerância desenfreada contra as religiões de matriz africana, por serem consideradas mais frágeis, e estarem diretamente ligada ao povo negro (Racismo, a gente vê por aqui).

Quando se fala de homossexualidade e religião, existe sempre o eterno conflito entre as partes, justamente por esse sistema opressor que impera também dentro de dos templos, o que acaba por afastar os homossexuais da vida religiosa, afinal de contas é a religião que vem endossando o massacre e perseguição da “classe”. Entretanto é perigoso afirmarmos que a religião nos oprime. Quando dizemos isso, a qual religião estamos nos referindo?

O cristianismo condena mulheres ao inferno pós-morte assim como em vida, se elas são lésbicas então, não há nem sequer o direito a salvação. Somos tratadas como inferiores, nos livros e na pratica, e quanto a estes fatos não existem argumentos contrários. Entretanto religiões com base no cristianismo não são as únicas existentes, há aquelas que fogem do modelo dominador e dominado, ímpio e justo, e assim como nós mulheres lésbicas essas religiões são perseguidas, por não servirem e perpetuar a estrutura de poder e dominação do patriarcado.

Que o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, venha ser uma data que nos faça lembrar que a mão que atira a pedra é a mesma é a mesma que puxa o gatilho*.

*Referência ao caso da menina de 11 anos apedrejada após sair de uma cerimônia de Candomblé em junho de 2015, e ao casal de lésbicas assassinadas dentro de casa no inicio desse mês.


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